Fernando Pessoa e a fragmentação do sujeito: uma leitura psicanalítica
1/28/20262 min read


Fernando Pessoa foi um poeta que entendeu cedo aquilo que a psicanálise viria a formular com precisão: não somos um só. Nascido em Lisboa, no fim do século XIX, Pessoa não escreveu apenas sob um nome — criou heterônimos, autores inteiros com biografia, estilo, visão de mundo e até mapa astral próprios. Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos (entre outros) não eram pseudônimos, mas modos distintos de existir e sentir.
Sob um olhar psicanalítico, os heterônimos de Fernando Pessoa podem ser compreendidos como uma elaboração sofisticada da fragmentação do sujeito. Longe de serem apenas um recurso literário, eles dão forma simbólica a uma experiência que é estrutural ao humano.
A psicanálise parte do princípio de que o sujeito não é uno. Somos atravessados por conflitos, desejos contraditórios e identificações múltiplas. O “eu” não é uma essência fixa, mas uma construção sempre parcial, sempre em movimento. Nesse sentido, Pessoa não cria algo estranho à experiência humana; ele radicaliza literariamente aquilo que todos vivemos internamente.
Ao inventar heterônimos, Pessoa não foge de si — ele se escuta. Cada voz encarna uma maneira singular de estar no mundo, de lidar com o desejo, com o corpo, com o tempo e com o sofrimento. É como se o poeta reconhecesse que não é possível dizer tudo a partir de uma única posição subjetiva.
Do ponto de vista psicanalítico, essa multiplicidade pode ser lida de diferentes maneiras:
Alberto Caeiro aparece como a fantasia de um sujeito livre do excesso de sentido: alguém que não interpreta, apenas sente. Um desejo de alívio frente à angústia produzida pelo pensar demais.
Ricardo Reis representa a tentativa de controle, racionalização e defesa diante do caos pulsional — uma aposta na medida e na contenção.
Álvaro de Campos expressa o excesso, a urgência de sentir tudo, a angústia e o vazio, muito próximos das experiências contemporâneas de esgotamento subjetivo.
Bernardo Soares, por sua vez, encarna a fadiga de existir: o sujeito que observa demais e vive de menos, capturado pela própria interioridade.
Na experiência contemporânea, essa multiplicidade assume outras formas. Somos convocados o tempo todo a performar identidades distintas — no trabalho, nas redes sociais, nos vínculos afetivos. Espera-se coerência, felicidade, produtividade e clareza sobre quem somos, enquanto internamente, muitas vezes, reina o desencontro.
O sofrimento psíquico não surge por termos muitas partes, mas por não haver espaço para escutá-las. Pessoa encontrou na escrita um modo de simbolizar essa divisão sem adoecer por ela. A clínica psicanalítica, de certa forma, opera de maneira semelhante: oferece um lugar onde o sujeito pode falar a partir de suas contradições, sem precisar unificá-las à força.
Talvez seja por isso que Fernando Pessoa permaneça tão atual. Ele nos lembra que não somos incoerentes por sermos múltiplos — adoecemos quando tentamos silenciar partes de nós mesmos para caber em uma identidade ideal.
Quando há um espaço de escuta, aquilo que parecia fragmentação pode se transformar em possibilidade de elaboração.
